I. O mundo numa almôndega.
Encontramo-nos imersos numa profunda crise económica, exposta diariamente em guinchos estridentes nos meios de comunicação social. A vida diária, no entanto, prossegue, indiferente, com as mesmas formas de antes, caracterizadas pela progressiva acumulação de comodidades materiais e respectivo embutimento mental das massas. A respeito desta incongruência nada de extraordinário há a dizer. É conhecidíssima a falta de coincidência entre realidade e comunicação social, na época contemporânea. O jornalismo inventa o mundo, usando como substrato primevo do seu guião os traços gerais, difusos daquilo a que chamamos realidade.
Bem.
Estamos em crise, dizia, e o cidadão vinga-se ocupando hotéis caros, ajavardando-se em restaurantes de luxo, lotanto estações de veraneio tropicais, empurrando-se em centros comerciais, numa catarse orgíaca colectiva. Crise insólita. Quem gosta de comer tranquilamente em casas de boa comida, está tramado. A democratização do comer fora de casa, enquanto acto de lazer, é um sinal dos tempos, e não se encontra restaurante suficientemente caro ou ermo que aceite um comensal sem reserva, sobretudo aos dias de descanso semanais. “Cheio” é o adjectivo que congrega todos os restaurantes – de tasco a Tavares – à mesma mesa, nas noites de Sábado. Que lhes faça bom proveito.
Se regra alguma há que goste de manter nesta vida sem sentido que levo, essa é a de tentar ir sempre na direcção oposta à das tendências gerais, cujo corolário afirma que, geralmente, se é imbecil. Particularizemos, então: comamos em casa. E é o que temos feito, la parienta y yo, com delícia tão densa, quanto melancólica. A melancolia é ingrediente básico da comida caseira, fonte proustiana de infâncias esquecidas, o silêncio da sala cortado a garfo e faca e dentes, que trucidam Verões de menino. Chego à conclusão de que é essa a comida que procuro quando vou a um restaurante: a que leva à mamã, ao calor, aos odores de certa cozinha maternal, aos sabores que apreciava em petiz. Creio ser esta a única, verdadeira regressão freudiana; as almôndegas com molho de tomate que nos lançam, em calções, numa correria, meia-leca, pela rua abaixo da inocência dos Verões em pirralho.
II. Almôndega per se.
Alimento, palavra curiosos: almôndega. A prefixação sugere uma origem árabe, que será filológica, mas não culinária, esta última mais remota no tempo. Talvez seja de invenção Suméria. Adiante. Ontem, durante o jantar, discutíamos o desprezo geral que rodeia a almôndega em Portugal. De memória, tentámos identificar um restaurante conhecido pela suas almôndegas, esforço que se veio a revelar inútil: o panorama almôndífero nacional é de uma aridez sub-sahariana. Eu acho que é da fonética desfavorável, pouco músical e da entoação um pouco ridícula. Uma banda de música humorística decidiu, há anos, apelidar-se de “Banda Almôndega”. Já os Espanhóis jamais desprezam o que é bom – nas inúmeras vertentes que a montanha “Bom” assume – e pude deliciar-me com umas suculentas almôndegas à burgalesa, durante uma visita a Pamplona. Os Portugueses são muito shakespearianos à mesa, perguntando-se introspectivamente o que haverá no nome do prato que se prestam a comer, antes de se aventurarem numa primeira garfada. Espanha, mais uma vez, sai a ganhar.





