“É a segunda vez que me acontece. Há poucas semanas, fui ao Jumbo de Setúbal ver A Comédia de Deus, do João César Monteiro. Gostei muito. Diverti-me a valer – excelente coisa num velhadas, horinhas de distracção e riso. Houve um intervalo. Acenderam as luzes. Então vi: na sala, ao fundo, só estava uma senhora. Solitária. O mais solitária que é possível. Desatei a rir, gritei-lhe: «Somos só nós?!» Ela foi bem simpática, elucidou-me apontando com o dedo: «Está ali outra senhora». E estava. E calada. E solitária 90 por cento, na sala agora silenciosa. Faço notar: em nós três havia cordialidade, companheirismo, quase talvez cumplicidade. Éramos pioneiros, éramos aventureiros, e Medo não entrava connosco. “
Luiz Pacheco, Blitz, 13 de Fevereiro de 1996
